Decifrando a Bíblia
Os 9 Gêneros Literários · Aula 7
Selo do curso Decifrando a Bíblia, os 9 gêneros literários

O GêneroSabedoria

O conselho sábio não é um contrato divino
Material de aprofundamento · Aula 7
do curso Decifrando a Bíblia: os 9 Gêneros Literários
e Como Pregar Cada Um
Pr. Fernando Foltran
Mundo da Palavra · Edição Founders

Sumário

Precisão exegética e alívio pastoral, na mesma página.

  1. O que é sabedoria bíblica
    A definição certa, o temor do Senhor e quem é o "insensato"
  2. As quatro marcas do pensamento sapiencial
    Orientação prática, dependência de Deus, autoridade indireta e teologia da criação
  3. As formas da literatura sapiencial
    Tabela de consulta dos dez subgêneros
  4. Provérbio não é promessa
    A tabela de contraste e cinco casos clássicos, lidos do jeito certo
  5. Os três livros e como se equilibram
    Provérbios, Jó e Eclesiastes: a regra, a exceção e o limite
  6. Os três maus usos de Fee e Stuart
    Os erros que transformam sabedoria em armadilha
  7. Princípios hermenêuticos
    O checklist para estudar um texto sapiencial
  8. A sabedoria no Novo Testamento
    A cruz como sabedoria de Deus e a chave cristológica
Decifrando a Bíblia · Aula 7Sumário
Introdução

O que é sabedoria bíblica

A literatura sapiencial é um dos gêneros menos conhecidos da Bíblia, e um dos mais maltratados. Os livros clássicos são três: Jó, Provérbios e Eclesiastes. Poucos sabem de fato como pregá-los, e quando o fazem, com frequência é para sustentar um estilo de vida centrado na terra. O problema mora no próprio assunto. Como esses textos tratam sem parar do lado prático da existência, fica fácil torcê-los em favor de uma religião de resultados, quase secular, uma espécie de auto-ajuda com verniz bíblico.

Por isso a definição precisa vir primeiro, e vir certa. Muitos descrevem a sabedoria como "o uso prático do conhecimento que Deus concede". Não está errado, mas fica raso, e o raso aqui é perigoso: abre a porta para ler Provérbios como um manual de sucesso. Osborne oferece uma definição mais exata: sabedoria bíblica é viver a vida no mundo de Deus pelas leis de Deus. O objetivo é usar bem a criação e desfrutar a vida sob os cuidados do Criador. O tema central nunca foi prosperar. Foi o temor do Senhor, e o que ele pede do dia a dia.

A fundação e o ambiente do gênero
O temor do Senhor

Philip Nel chama o temor do Senhor de a "base" de todo o pensamento sapiencial de Israel. Ele aparece como o princípio da sabedoria em Provérbios 1.7 e 9.10, em Jó 28.28 e no fecho de Eclesiastes 12.13. Guarde o que isso implica: sabedoria não é informação acumulada na cabeça, é um conceito ético. Ela nasce de ouvir o Senhor e obedecer, e seu avesso é a recusa ativa do mal. O temor do Senhor é menos um sentimento e mais um ambiente, a esfera dentro da qual a verdadeira sabedoria se torna possível.

Há ainda um detalhe de vocabulário que, quando ignorado, arruína a aplicação. O "insensato" dos Provérbios não é o inculto, o de pouca leitura, nem o irmão que discorda de nós numa questão teológica. O insensato bíblico é quem vive ignorando a Deus, quem segue a si mesmo como se Deus não existisse. Trocar essa definição por "o burro" ou "o que pensa diferente de mim" é uma das fontes mais comuns de má pregação sapiencial.

E agora o coração de tudo. Como os ditados sapienciais são máximas curtas e fáceis de decorar, a tentação é lê-los como promessas, garantias que Deus estaria obrigado a cumprir. Não são. Daqui sai a regra de ouro que atravessa este caderno inteiro.

A regra de ouro da interpretação sapiencial
Provérbio não é promessa.

O provérbio é uma regra geral sobre como a vida costuma funcionar sob a ordem que Deus pôs na criação. Não é uma garantia divina com força de lei. Confundir conselho sábio com garantia divina é o motor de boa parte da teologia da prosperidade, e é também o que esmaga fiéis sinceros com uma culpa que não é deles.

Este ebook tem, por isso, duas funções que pesam igual: ensinar a ler com precisão e aliviar quem foi ferido por uma leitura errada.

O exemplo que mais fere está em Provérbios 22.6: "ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará". Pregado como promessa, esse versículo transforma todo pai de um filho que se afastou da fé num fracasso, num culpado que teria feito algo errado. Não é isso que o texto diz, e a diferença entre regra geral e garantia é o que separa o alívio da culpa esmagadora. Voltaremos a ele em detalhe. Por ora, guarde a régua: o provérbio aponta o caminho normal e sábio, não firma um contrato mecânico da parte de Deus.

Decifrando a Bíblia · Aula 7Introdução
Bloco 1

As quatro marcas do pensamento sapiencial

Antes de interpretar um provérbio, é preciso entender como a sabedoria pensa. Quatro traços definem essa mente, e cada um tem consequência direta na hora de pregar.

1. Uma orientação prática

Esta é a marca básica. Os provérbios existem para ajudar alguém a assumir bem o seu lugar no mundo, transmitindo a experiência acumulada para que a vida siga com ordem. Por isso giram em torno de assuntos concretos: o modo de falar, o autocontrole, as relações de família, o dinheiro, a amizade, a razão do sofrimento do justo e a prosperidade do mau. A consequência hermenêutica é imediata. Um texto tão colado à vida cotidiana é exatamente o que mais facilmente se deixa sequestrar por leituras utilitárias. Quanto mais prático o gênero, mais disciplina o intérprete precisa ter.

2. A dependência de Deus

A velha ideia de que a sabedoria teria nascido secular e só depois se tornou religiosa foi abandonada. Como afirmam Waltke e Diewert, não se pode separar o sagrado do secular na literatura do antigo Oriente Próximo. As muitas variáveis e os paradoxos da vida forçaram o sábio a reconhecer seus limites e a depender de Deus como a verdadeira fonte da sabedoria. Deus aparece ao mesmo tempo como soberano, onipotente, onisciente, Criador e Juiz. A consequência para o intérprete: nenhuma máxima de Provérbios funciona como técnica autônoma de sucesso. Toda ela pressupõe um Deus vivo no controle, e é só dentro dessa dependência que faz sentido.

A própria Sabedoria é personificada como uma extensão de Deus: um artesão ao lado do Criador na obra do mundo (Pv 8.29-30), uma professora que clama na praça convidando os alunos (Pv 1.20-21; 8.1-36) e uma anfitriã que chama para o seu banquete (Pv 9.1-12). O tempo todo ela é contrastada com a mulher adúltera e com a anfitriã tola (Pv 9.13-18), as duas vozes que convidam para a morte.

3. A autoridade indireta

Aqui está uma diferença fina, mas decisiva, em relação à profecia. O profeta anuncia "assim diz o Senhor". O sábio nunca faz isso. A autoridade divina é pressuposta, mas não enunciada. Nel chega perto da verdade ao observar que cada admoestação tira sua força de dentro, da própria verdade intrínseca da sentença. A consequência é surpreendente e libertadora: o provérbio pede que você o acate porque ele é verdadeiro e sábio, não porque venha carimbado com uma fórmula de autoridade absoluta. Ele convence, ele não decreta. Isso já explica, por si só, por que lê-lo como decreto é forçar o gênero.

4. A teologia da criação

A ênfase na criação é a estrutura de fundo de todo o pensamento sapiencial. O argumento é que Deus fez o mundo do modo que julgou bom, e o ser humano não deve questionar a ordem que Deus deu. Dentro disso está o princípio da recompensa: o mesmo Deus que criou o universo continua no controle, e por isso recompensa o justo e pune o ímpio. Mas os próprios sábios sabiam que a experiência desmente esse princípio o tempo todo, e tiveram de encarar a prosperidade do mau. A resposta deles foi que essa prosperidade é passageira e termina no juízo (Sl 73.18-20). A consequência hermenêutica é a mais importante do bloco: o princípio da recompensa é uma tendência da criação, não uma engrenagem automática. Ele descreve como as coisas em geral caminham, e não garante o resultado de cada vida. É a própria Bíblia relativizando a leitura mecânica, dentro do gênero.

Regra de ouroAs quatro marcas apontam para o mesmo lugar: a máxima mostra o caminho sábio no mundo de Deus, mas quem governa o desfecho é Deus, não a fórmula. Provérbio não é promessa.
Decifrando a Bíblia · Aula 7Bloco 1 · As quatro marcas
Bloco 2

As formas da literatura sapiencial

Na aula tratamos quase só do provérbio. Mas a sabedoria fala de vários modos, e cada forma tem suas regras. Identificar a forma é o primeiro passo hermenêutico, porque um enigma não se lê como um mandamento.

Termo técnico
Provérbio (hebr. mashal)

É a forma básica e mais proeminente: a afirmação breve de uma verdade amplamente aceita, moldada para ser memorizada. O termo hebraico mashal é elástico e cobre também alegorias, aforismos, ditados populares e comparações. Por sua própria natureza, o provérbio é uma afirmação genérica, cujo propósito é aconselhar. Não se deve ler nele nada além do que ele de fato diz.

FormaO que éOnde ver
ProvérbioA afirmação breve de uma verdade aceita, feita para ser memorizada. A forma central do gênero.Pv em geral · Gn 10.9
Ditado de experiênciaObserva o que costuma acontecer, sem fechar uma regra. É descrição, não mandamento.Pv 11.24 · Pv 17.28
Ditado didáticoMenos geral, quer inculcar um valor específico. Está mais perto do provérbio.Pv 14.31
EnigmaA charada. Em forma pura só no enigma de Sansão, mas está por trás dos provérbios numéricos.Jz 14.10-18 · Pv 30.15-31
AdmoestaçãoUm mandamento ou proibição seguido de uma frase de motivação, que diz por que obedecer.Pv 9.9 · Pv 22.24-25
AlegoriaUma metáfora estendida. Explícita apenas duas vezes no Antigo Testamento.Pv 5.15-23 · Ec 12.1-7
Hinos e oraçõesSeções poéticas que glorificam a Sabedoria e agradecem a Deus como Criador e Redentor.Jó 28 · Pv 8
DiálogoO subgênero primordial de Jó. Inclui a "fala imaginada", em que se apresenta o pensamento de um adversário para refutá-lo.Jó (livro) · Pv 1.11-14
ConfissãoAutobiográfica: o sábio usa a própria experiência como exemplo. A "confissão real" de Eclesiastes é o modelo.Ec 1.12-2.26 · Jó 29-31
OnomásticaAs listas sapienciais, séries de perguntas ou de atos criativos que enumeram as obras de Deus.Jó 38 · Sl 148
Bem-aventurançaA fórmula "bem-aventurado o que...", com uma nuance teológica e uma promessa implícita.Sl 1.1; 112.1 · Pv 28.14
Termos técnicos
Admoestação · Onomástica

A admoestação é a ordem sábia acompanhada da sua razão: "instrui o sábio, e ele se fará mais sábio" (Pv 9.9), onde a segunda linha é a frase de motivação. A onomástica é a lista, o inventário: séries como as perguntas que Deus dispara em Jó 38, que enfileiram as obras da criação para colocar o ser humano no seu lugar diante do Criador.

Regra de ouroA forma decide a leitura. Uma fala imaginada em Jó não é doutrina do livro, e um ditado de experiência descreve o que costuma ocorrer, não promete que ocorrerá.
Decifrando a Bíblia · Aula 7Bloco 2 · As formas da sabedoria
Bloco 3

Provérbio não é promessa

Este é o coração do caderno. Quase todo abuso da literatura sapiencial começa aqui, no momento em que um conselho é lido como um contrato. A tabela abaixo é para consultar sempre que a dúvida voltar.

AspectoO provérbioA promessa
O que éUma regra geral sobre como a vida costuma funcionar sob a ordem que Deus pôs na criação.Um compromisso que Deus assume e se obriga a cumprir, garantido pelo seu caráter.
AlcanceEm geral, normalmente, na maioria dos casos. Admite exceção sem deixar de ser verdadeiro.Sempre, sem exceção. Se falhasse uma vez, deixaria de ser promessa.
Como reconhecerForma de máxima curta e memorável, linguagem de causa e efeito, muitas vezes com hipérbole.Vínculo direto a uma aliança, a um juramento ou a uma declaração explícita de Deus.
Se os dois se confundemCulpa esmagadora quando a regra não se cumpre, e a teologia da prosperidade como sistema.Dúvida sobre a fidelidade de Deus, como se ele tivesse falhado com sua palavra.

Com a tabela em mãos, veja os cinco casos que mais aparecem no púlpito. Em cada um, a mesma anatomia: a leitura errada, a razão do erro e a leitura que faz justiça ao texto.

Provérbios 22.6a criança e o caminho
Leitura errada
Garantia de que todo filho criado na fé jamais se desviará. Se ele se desviou, os pais falharam em algo.
Por que erra
É uma regra geral sobre formação, não um contrato que anule a vontade do filho adulto. A própria Escritura mostra filhos tementes de pais ímpios e filhos rebeldes de pais fiéis.
Leitura correta
A formação recebida na infância deixa marcas profundas e tende a orientar a vida inteira. O pai fiel cumpriu o seu chamado. O desfecho final pertence ao filho e a Deus.
Alívio pastoral

Se você é pai ou mãe de um filho que se afastou, respire. Provérbios 22.6 não está te condenando. Ele descreve a força da boa formação, não firma um contrato que obrigue o coração do seu filho. Você semeou. A colheita passa por uma liberdade que não é sua para controlar, e por um Deus que continua trabalhando muito depois de a criança virar adulto.

Provérbios 10.22a bênção que enriquece
Leitura errada
"A bênção do Senhor enriquece" prova que é vontade de Deus que todo crente prospere financeiramente.
Por que erra
O versículo faz parte de uma comparação maior entre o justo e o ímpio no capítulo 10, e precisa ser equilibrado por textos sobre o lugar da pobreza (Pv 17.5; 18.23).
Leitura correta
A bênção de Deus é o bem verdadeiro, e vem "sem trazer dor alguma", sem o tormento da ganância. Não é promessa de fartura material para todos.
Provérbios 3.9-10os celeiros cheios
Leitura errada
"Honra o Senhor com os teus bens e os teus celeiros se encherão" garante prosperidade a quem dá com fidelidade.
Por que erra
É linguagem hiperbólica, e o próprio contexto relativiza: Provérbios 23.4-5 diz para não se cansar por riquezas que voam como a águia. Não é garantia com força de lei.
Leitura correta
Uma máxima geral: Deus recompensa o que se lhe consagra. A recompensa se mede primeiro pela vontade divina, e nem sempre em bens.
Provérbios 16.3os planos que prosperam
Leitura errada
"Confia ao Senhor as tuas obras e os teus planos serão estabelecidos" quer dizer que qualquer plano entregue a Deus vai dar certo.
Por que erra
Isso incluiria até um plano mal concebido, um negócio apressado, uma decisão impensada. O "sucesso" prometido se mede pela vontade de Deus, não pelo padrão do mundo.
Leitura correta
Entregar a vida a Deus alinha os planos ao propósito dele. O que prospera aos olhos de Deus pode parecer fracasso aos olhos do mercado.
Provérbios 22.26-27o fiador e a cama
Leitura errada
O texto proíbe hipotecar a casa, ou ensina que toda dívida é pecado.
Por que erra
A prática de dívidas e negócios era comum e legítima na vida de Israel. O provérbio não é uma lei absoluta sobre finanças.
Leitura correta
Um conselho de prudência ao contrair dívidas e servir de fiador, pelo risco real de perder tudo no processo.
Regra de ouroEm cada caso, o teste é o mesmo: o texto está descrevendo como a vida costuma andar sob Deus, ou registrando um compromisso que Deus jurou cumprir? Quase sempre é o primeiro.
Decifrando a Bíblia · Aula 7Bloco 3 · Provérbio não é promessa
Bloco 4

Os três livros e como se equilibram

Provérbios, Jó e Eclesiastes não são três versões do mesmo livro. Eles se corrigem uns aos outros, e é justamente esse equilíbrio que protege a fé de quebrar na primeira crise.

De onde veio a sabedoria

Egito e Mesopotâmia tinham tradições sapienciais antigas e ricas. No Egito, o conceito central era o maat, a "ordem" ou "verdade", a condição para viver em harmonia com a ordem divina. Os egípcios até criaram um termo para o sábio ideal, o "homem silencioso", aquele que controla a si mesmo e evita o excesso, em contraste com o "homem passional". É provável que Israel conhecesse essas tradições e as tenha rearticulado a partir da sua fé em Javé. A diferença é decisiva: enquanto os mestres pagãos eram figuras seculares interessadas em prosperar na sociedade, só em Israel o objetivo principal era agradar a Deus (Pv 3.7).

Provérbios: a regra geral

Provérbios é, na maior parte, uma coletânea de máximas sobre como a vida costuma funcionar sob a mão de Deus. Ele diz a verdade, mas a verdade de uma regra geral: o diligente prospera, o preguiçoso se arruína, a língua mansa acalma. Pregado sozinho, porém, Provérbios produz uma fé frágil, do tipo que promete que ao justo tudo dará certo. E então chega a primeira crise séria, o câncer, o desemprego, o filho que morre, e essa fé desaba, porque foi construída sobre uma promessa que o livro nunca fez.

Jó: a exceção dolorosa

É aqui que Jó entra, como o contrapeso necessário. Jó é o justo que sofre sem ter pecado, a exceção que a regra de Provérbios não explica. E o livro é ainda mais afiado do que parece. Os amigos de Jó, Elifaz e os outros, são exatamente os pregadores da retribuição automática: para eles, se Jó sofre, é porque pecou. Eles pregam Provérbios como promessa. E o veredito de Deus sobre esses discursos é demolidor: "a minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto" (Jó 42.7). Deus condena a teologia da retribuição automática pela própria boca. Quem transforma provérbio em promessa está, sem perceber, repetindo o erro dos amigos de Jó.

Eclesiastes: o limite de tudo

Eclesiastes fecha o cerco por outro lado. Se Jó mostra que o justo pode sofrer, Eclesiastes mostra que nada debaixo do sol, nem riqueza, nem sabedoria, nem prazer, entrega o sentido último da vida. Do começo ao fim é um discurso sombrio sobre a futilidade, e a palavra que o pontua, "vaidade" (Ec 1.2; 12.8), quer dizer "sem sentido", "fôlego que se dissipa". O autor escreve como um cético honesto examinando a vida de um ponto de vista quase secular, e a morte reaparece o tempo todo para roubar o valor final das coisas.

A chave que abre o livro
O epílogo de Eclesiastes (Ec 12.9-14)

A chave está no fecho, escrito em terceira pessoa como um comentário teológico sobre todo o restante. Ele termina assim: "Teme a Deus e guarda os seus mandamentos, porque isto é o dever de todo homem" (Ec 12.13). O epílogo revela a estratégia do livro inteiro, parecida com a de Romanos 7 e 8: expor o vazio de uma vida sem Deus para fazer brilhar, por contraste, a sabedoria de uma vida que o teme. Os versículos sombrios só se leem certo à luz desse desfecho.

Roland Murphy resume Eclesiastes em seis pontos que ajudam o pregador. Primeiro, toda a vida é vaidade, sem satisfação duradoura. Segundo, a alegria da vida é um dom real de Deus, embora atenuada pela morte e pelos caminhos inescrutáveis do Todo-poderoso. Terceiro, apesar de criticar a sabedoria tradicional, o livro continua sapiencial e busca o bem. Quarto, o "temor a Deus" ali é o temor diante dos caminhos incertos da vida, que leva a confiar no Deus que não se pode decifrar. Quinto, o justo e o ímpio às vezes trocam de posição, com o justo perecendo e o ímpio sobrevivendo, ainda que o juízo de Deus venha. Sexto, Deus é o criador e doador da vida, mas está além da compreensão, e deve ser aceito em seus próprios termos.

A tese desta seção
Quem prega só Provérbios constrói uma fé que quebra na primeira crise.

Provérbios dá a regra, Jó dá a exceção, Eclesiastes dá o limite. Os três juntos formam uma fé madura, capaz de dizer ao mesmo tempo que a sabedoria compensa e que o justo às vezes chora sem resposta. Tirar Jó e Eclesiastes da mesa é o que produz cristãos despreparados para o dia em que a regra geral não se cumprir na vida deles.

Decifrando a Bíblia · Aula 7Bloco 4 · Os três livros
Bloco 5

Os três maus usos de Fee e Stuart

Gordon Fee e Douglas Stuart mapearam os três modos mais comuns de errar na literatura sapiencial. Conhecê-los de nome já é meio caminho para não cair neles.

  1. Descontextualizar e tomar ao pé da letra.

    Arrancar o ditado do seu conjunto e lê-lo literalmente, como quando Provérbios 10.22 vira promessa de que todo crente ficará rico. O provérbio pertence a uma comparação maior entre o justo e o ímpio, e precisa ser lido junto com os textos que falam da pobreza. Fora do contexto, a máxima diz o que nunca quis dizer.

  2. Não definir corretamente os termos.

    Ler as palavras sapienciais com o sentido de hoje, e não com o sentido do gênero. O caso clássico é "insensato" em Provérbios 14.7. Ele não é o inculto, nem o irmão de outra opinião teológica. É o pagão incrédulo, quem ignora a Deus e segue a si mesmo. Errar essa definição contamina a aplicação inteira.

  3. Não perceber a linha de raciocínio.

    Pregar como verdade uma fala que o próprio livro considera errada. O exemplo mais perigoso são os discursos dos amigos de Jó. Elifaz afirma que "o ímpio vive angustiado todos os seus dias" (Jó 15.20-22), e há quem pregue isso como doutrina, quando Jó o contradiz e a experiência confirma que nem sempre é assim. A fala está no texto, mas o texto não a endossa. É preciso ler o argumento inteiro para saber de que lado o livro está.

Regra de ouroOs três erros têm a mesma raiz: ler o pedaço em vez do todo. E o todo, na sabedoria, é sempre maior e mais cuidadoso do que a frase solta que se quer citar.
Decifrando a Bíblia · Aula 7Bloco 5 · Os três maus usos
Bloco 6

Princípios hermenêuticos

Toda a teoria vira, no fim, um punhado de passos práticos. Este é o checklist para sentar diante de um texto sapiencial e estudá-lo sem distorcê-lo.

  1. Observe a forma do ditado.

    É um provérbio curto ou um discurso didático mais longo? Uma alegoria? Um diálogo, e nele uma fala imaginada, correta ou incorreta? Cada subgênero tem suas regras. Em Provérbios 15.25, "o Senhor derruba a casa dos soberbos, mas firma os limites da viúva", é preciso ver a mini-parábola por trás: o princípio de que Deus, no fim, corrige as injustiças do mundo. Tomá-lo ao pé da letra seria errar a forma.

  2. Questione se o contexto é importante.

    Em Provérbios 1 a 9, no capítulo 13 e em 30 a 31, há discursos com fio contínuo, e o contexto pesa muito. Já em Provérbios 10 a 29, o livro é sobretudo uma série de máximas avulsas, e o contexto imediato pesa menos: ali se interpreta cada provérbio pelo seu paralelismo interno e agrupando os semelhantes por tema.

  3. Determine a ocorrência de hipérboles.

    Muitas declarações exageram de propósito para gravar a verdade na memória. Provérbios 3.9-10, dos celeiros cheios, não é garantia de fartura. Como mostram Fee e Stuart, esses ditados não são garantias divinas com força de lei, e sim máximas gerais com uma promessa dada em linguagem hiperbólica.

  4. Transculture as passagens obscuras.

    Muitos ditados dependem de costumes antigos, e o que se aplica hoje é o princípio atemporal dentro deles. A balança de Provérbios 11.1 vira um convite a negócios honestos. O canto do eirado de Provérbios 25.24 vira, para nós, "melhor morar no quintal". A funda de Provérbios 26.8, arma que dispara a pedra e a perde, vira a imagem de uma honra desperdiçada no tolo. O trabalho é achar a situação análoga que faça a verdade mais profunda reaparecer.

O caso que desfaz uma leitura violenta
Provérbios 13.24

"O que retém a vara aborrece a seu filho" já foi usado para justificar agressão. O contexto desmonta isso. A segunda metade do mesmo versículo diz "mas o que o ama, cedo, o disciplina", e o capítulo 13 inteiro pinta um quadro positivo, com o filho sábio seguindo a instrução do pai. A passagem fala de disciplina cuidadosa e amorosa, dentro de um padrão maior de criar o filho "na disciplina e admoestação do Senhor" (Ef 6.4). Ler ali licença para violência é, mais uma vez, tomar o pedaço isolado em vez do todo.

Termos técnicos
Hipérbole · Transculturar

A hipérbole é o exagero intencional, feito para gravar uma verdade, e não para ser cumprido ao pé da letra. Transculturar é levar o princípio atemporal de um ditado, preso a um costume antigo, para uma situação equivalente de hoje, preservando a verdade e trocando só a roupagem cultural.

Decifrando a Bíblia · Aula 7Bloco 6 · Princípios hermenêuticos
Bloco 7

A sabedoria no Novo Testamento

O gênero não terminou no Antigo Testamento. Jesus e a igreja primitiva respiraram a tradição sapiencial, e ela desemboca num só lugar: em Cristo, a sabedoria de Deus em pessoa.

Virou comum chamar Jesus de "mestre da sabedoria" e rotular livros inteiros, como Tiago, de literatura sapiencial. Há algum exagero nisso, mas também uma parcela real de verdade. Se a sabedoria é o conjunto de instruções éticas que mostram a centralidade de Deus na vida cotidiana, o encaixe com o Novo Testamento é grande. Partes do Sermão do Monte, como as antíteses de Mateus 5.21-48, são puro pensamento sapiencial. As exortações de Romanos 12, de Tiago 1 a 3, os códigos sociais de Efésios e 1Pedro, as listas de virtudes de Gálatas 5 e Colossenses 3, todas trazem a marca da sabedoria. E em 1Coríntios 1 a 3, Paulo contrapõe a sabedoria do mundo à de Deus e coloca a cruz no centro: o que parece loucura aos olhos humanos é a mais alta sabedoria divina.

Termo técnico
Parenético

Diz-se do texto que exorta, que apela à conduta prática do leitor em vez de apenas expor doutrina. As seções parenéticas do Novo Testamento, como Romanos 12 ou Tiago, são o lugar onde a herança sapiencial mais aparece: conselho concreto para a vida, ancorado em Deus. E vale a mesma régua do Antigo Testamento: também as máximas de Tiago se leem como conselho sábio, não como garantia mecânica.

A chave cristológica

Aqui as duas grandes linhas da literatura sapiencial se encontram e se resolvem. De um lado, a Sabedoria personificada de Provérbios 8, aquela que estava com Deus como artesão na criação, que clamava na praça convidando os simples a viver. De outro, a busca sem descanso de Eclesiastes, o cético honesto perguntando onde está o sentido de tudo debaixo do sol. Provérbios apresenta a Sabedoria como pessoa. Eclesiastes confessa que, sem Deus, nada tem sentido. As duas linhas esperavam uma resposta, e a resposta tem um nome.

Paulo declara que Cristo é "poder de Deus e sabedoria de Deus" (1Co 1.24), aquele que "se tornou para nós sabedoria vinda de Deus" (1Co 1.30). E em Cristo, diz ele, "estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento" (Cl 2.3).

A Sabedoria que caminhava pela praça de Provérbios 8 se fez carne e caminhou pela Galileia. O sentido que Eclesiastes procurou embaixo do sol foi encontrado no Filho que veio de cima. Toda a literatura sapiencial, com suas regras, suas exceções e seus limites, aponta para Ele. Aprender a ler bem este gênero não termina numa lista de conselhos para viver melhor. Termina diante de Cristo, a sabedoria de Deus, em quem o temor do Senhor finalmente ganha rosto.

Decifrando a Bíblia · Aula 7Bloco 7 · A chave cristológica
Para ir além

Fontes consultadas

Tudo o que você leu aqui pode ser verificado. Estas são as obras e os autores que sustentam cada afirmação deste caderno.

Obra-base da Aula 7

Autores citados ao longo do texto

A síntese de Osborne
Não há corpo da literatura organizado de forma tão prática quanto a sabedoria, e só isso já mostra a imensidão do seu valor.

Poucas partes das Escrituras são mais diretamente aplicáveis à vida cristã. Lida como conselho dentro do temor do Senhor, e não como garantia solta, a sabedoria rende um rico tesouro. Lida como promessa, ela vira um fardo. A diferença entre as duas leituras é a diferença entre libertar e esmagar.

Decifrando a Bíblia · Aula 7Fontes consultadas
Decifrando a Bíblia · Aula 7

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o melhor do seu preparo.

Pr. Fernando Foltran
Mundo da Palavra